Não há nada mais regressivo que o desemprego

É comum vermos políticos bravejando nas comissões e no plenário do Congresso

Nacional que o sistema tributário brasileiro é regressivo. Muitos se baseiam no discurso

da justiça social e pedem a tributação da distribuição de lucros e dividendos e das grandes

fortunas. Também insistem na cobrança de um imposto similar ao IPVA sobre a

propriedade de lanchas, helicópteros e jatinhos, como se com essas medidas o problema

da regressividade pudesse ser considerado resolvido.

Nós precisamos questionar qual seria o real impacto desse tipo de medida. Será

que são essas as propostas que melhor combatem a regressividade tributária? Onde está

a real regressividade do sistema tributário brasileiro?

O que é regressividade tributária?

Um tributo é regressivo quando ele não considera a capacidade econômica das

pessoas e incide proporcionalmente mais em quem está na parte de baixo da pirâmide de

renda. Nesse caso, quanto menor for a renda da pessoa, maior será a parcela dos seus

rendimentos que será destinada ao pagamento desse tipo de imposto.

Para além do senso comum

Por falta de aprofundamento no debate, muitos elegem as citadas tributações sobre

grandes fortunas, sobre lucros e dividendos e demais bens de luxo, como principais

formas de solucionarmos o problema da regressividade do sistema tributário brasileiro.

No entanto, ainda que essas medidas tenham algum efeito e pareçam populares, elas não

atacam as reais causas da regressividade do sistema tributário brasileiro.

Como explicarei a seguir, dada a realidade do país, existem outras formas, mais

efetivas, de tornar a carga tributária brasileira menos regressiva.Desequilíbrio da tributação sobre a renda versus consumo

Os tributos incidem sobre três bases: propriedade, renda e consumo. As duas bases

que mais geram regressividade são as duas últimas. No Brasil, a carga tributária sobre o

consumo é maior do que a carga tributária sobre a renda. Este é o padrão encontrado nos

países menos desenvolvidos em geral, já que estes detêm pouco acúmulo de capital. Para

se ter uma ideia, um estudo da Receita Federal apontou que, em 2018, quase metade

(44,74%) dos impostos brasileiros tiveram origem sobre o consumo.

Isso torna o sistema tributário brasileiro ainda mais regressivo, pois

diferentemente das camadas mais altas, que têm condições de poupar parte de seus

rendimentos, as camadas de renda mais baixa consomem praticamente tudo o que

recebem e acabam comprometendo parte significativa de sua renda com o pagamento de

impostos que incidem sobre o consumo de bens básicos.

Uma carga tributária mais alta no consumo não é a opção ideal para o Brasil, mas

aparece como uma necessidade de um país que tem uma base de renda muito baixa. O

estado atual das coisas torna inviável uma carga tributária mais alta na renda. Nesse

sentido, a PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) Contínua do IBGE

mostra que 95% da população brasileira ganha até R$ 3.388,00 (três mil, trezentos e

oitenta e oito reais) por mês. Fica claro que não é possível compensar a arrecadação da

carga tributária sobre o consumo apenas com a tributação sobre a renda dos 5% que

ganham, em média, acima desse valor. O simples aumento das alíquotas de Imposto de

Renda sobre os atuais salários, por exemplo, teria efeito limitado sobre a regressividade

tributária.

A regressividade decorrente do desequilíbrio da tributação sobre a renda versus

consumo, será resolvida quando a média dos salários dos brasileiros subir e levar,

naturalmente, a uma maior contribuição sobre a renda.

Desequilíbrio da tributação dentro do consumo: bens versus serviços

Por outro lado, dentro da tributação sobre o consumo, podemos avançar muito no

combate à regressividade. Temos condições de fazer isso se eliminarmos a distorção

existente entre a carga tributária incidente sobre bens e sobre serviços.

No modelo atual, a carga tributária incidente sobre os bens é muito superior à

carga que incide sobre os serviços. Não é razoável que incidam mais impostos sobre a

panela, que serve para cozinhar o arroz e o feijão, do que sobre os serviços prestados por

uma clínica de estética, por exemplo.

Se considerarmos o perfil de consumo das pessoas de mais baixa renda,

perceberemos que elas consomem muito mais bens, do que serviços. Isso caracteriza a

regressividade do modelo, pois quem tem menos condições de pagar tributos é

exatamente quem mais consome os produtos sobre os quais incidem a maior parte da

carga tributária arrecadada pelo governo.

Muitos argumentam que, por ser o setor que mais emprega no Brasil, o setor de

serviços deveria continuar com menor carga tributária. No entanto, esse argumento é

falho, pois quem tem que ser colocado no centro da discussão sobre a regressividade é o

cidadão, consumidor e pagador de impostos.

Nessa seara, a proposta de Reforma Tributária tem a obrigação de equilibrar a

carga tributária incidente entre bens e serviços, corrigindo as atuais distorções que fazem

com que os mais pobres paguem, proporcionalmente, mais tributos do que os mais ricos.

A solução mais efetiva para o problema da regressividade tributáriaA complexidade do sistema tributário brasileiro é elemento excludente, vai contra

o setor produtivo e inibe a iniciativa privada. Dentre 190 países avaliados pelo Banco

Mundial, o Brasil ocupa a posição 184 no quesito de racionalidade no pagamento de

impostos. Quem tem menos condições, têm maior dificuldade de empreender e se

formalizar. O manicômio tributário brasileiro faz com que as empresas e profissionais

liberais tenham de ter estruturas dedicadas a vencer as 1.501 horas que o brasileiro médio

depende para apurar, pagar impostos e cumprir todas as obrigações acessórias do governo.

A dificuldade para calcular os tributos devidos também gera grande insegurança

jurídica, ao menos R$ 5,4 trilhões de reais em cobranças de tributos são alvos de disputas

judiciais ou administrativas no Brasil. A burocracia estatal e a falta de um ambiente de

negócios competitivo complicam a vida dos empreendedores brasileiros. O Custo Brasil

da alta complexidade tributária é avaliado em R$ 240 a 280 bilhões de reais.

Toda a dificuldade de um sistema tributário complexo e, portanto, menos

acessível, redunda em menos empregos, que deixam de ser gerados pela dificuldade que

muitos têm de empreender. Simplificar o sistema traria maior facilidade de empreender,

que seria mais sentida justamente por quem tem menos condições de competir e se

formalizar. Com mais pessoas empregadas em vagas formais, consequentemente, boa

parte da tributação sobre o consumo poderá ser transferida para a renda, trazendo um

efeito secundário que ajuda a melhorar o problema da regressividade.

A Reforma Tributária, em tramitação no Congresso Nacional, pretende trazer essa

simplificação, mas o mais importante é que, com a melhora do ambiente de negócios, a

reforma vai entregar empregos e essa é a melhor forma de combatermos a regressividade

tributária. Afinal, alguém que está desempregado não tem renda, consome bens muito

básicos e, aí sim, paga a carga tributária mais alta de todas.

Não há nada mais regressivo que o desemprego…